A final do peso pluma do Mundial No Gi da IBJJF teve um significado especial ao ilustrar o poder transformador do Jiu-Jitsu na vida de muitos. Frente a frente, Marcos Gomes e Kleber Barbosa, dois atletas egressos da periferia carioca, que inclusive já dividiram o mesmo tatame, disputavam com respeito o primeiro título mundial da carreira na faixa-preta, no alto rendimento do esporte. Foi Marcos quem ficou com a cobiçada medalha dourada e a atitude do campeão, erguendo o braço de Kleber sob o olhar do público, mostrou que o Jiu-Jitsu fez dele um ser humano evoluído, que enaltece as próprias raízes e reconhece a luta, a mesma que a sua, do adversário.
Vivendo do Jiu-Jitsu em tempo integral nos Estados Unidos, Marcos é atleta e professor na AOJ e o título Mundial obtido em Las Vegas neste mês de dezembro foi a chave que ele precisava para destrancar ainda mais portas de oportunidades. Em entrevista à The Mat Nation, que acompanhou de perto a glória do atleta no Mundial No Gi, Marcos Gomes falou sobre a rotina atual, dedicação ao longo dos anos, escolhas corretas na vida e mudança de mentalidade.

Passar a frequentar a escola de Jiu-Jitsu dos irmãos Mendes, para Marcos, foi o ponto de mudança que o fez enxergar a carreira sob uma nova perspectiva. Influenciado positivamente pelo ambiente, e pela orientação clara de Guilherme Mendes, o atleta entendeu que um caminho de sucesso não é pavimentado somente com medalhas. Ele virou um estudioso, analisou os pontos fracos e fortes do Marcos atleta e pessoa e, enfim, conseguiu chegar lá, no topo do pódio, depois de experimentar uma final de Mundial No Gi em 2024, quando foi vice-campeão.
LEIA ABAIXO, NA ÍNTEGRA, A ENTREVISTA EXCLUSIVA COM MARCOS GOMES, ATUAL CAMPEÃO MUNDIAL SEM KIMONO ENTRE OS PLUMAS:
THE MAT NATION – Você acaba de conquistar seu primeiro título mundial na faixa-preta no Mundial No Gi da IBJJF. O que passa pela sua cabeça ao olhar para trás e lembrar do caminho, das dificuldades no Brasil até esse momento no topo do esporte?
MARCOS GOMES: Quando olho para trás sinto orgulho de mim mesmo, de não ter desistido apesar das dificuldades que tive. Sou um moleque que veio de uma comunidade pequena do Rio de Janeiro, com poucas oportunidades e muitas opções de seguir pelo caminho errado. Fico feliz de ter escolhido o Jiu-Jitsu aos 14 anos de idade. Aos 15 me mudei para São Paulo, sozinho, morava na academia. Eu sabia que esse momento ia chegar. Esse título mundial não é só reflexo do que venho treinando agora, na faixa-preta, mas é tudo que eu fiz a longo prazo.
THE MAT NATION – A sua ida para os Estados Unidos marcou uma virada importante na carreira. Como foi esse processo de adaptação, dentro e fora do tatame, e o quanto a AOJ e os irmãos Mendes foram determinantes para a sua evolução como atleta e professor?
MARCOS GOMES: A mudança para os Estados Unidos mudou muito a minha vida e a da minha família. Eu cheguei na AOJ com uma mentalidade diferente, só de lutar e ganhar títulos. Lá a gente expande a nossa mente, o professor Guilherme (Mendes) conversou muito comigo assim que eu cheguei. Isso fez toda a diferença, me fez tomar a decisão de começar a viabilizar a mudança para a Califórnia. Eu tenho evoluído em várias áreas, não só como atleta dentro do tatame, mas como professor, como pessoa.

THE MAT NATION – Hoje, além de competir em alto nível, você também dá aulas em uma das academias mais renomadas do mundo. De que forma o papel de professor influencia o seu próprio jogo e a maneira como você enxerga o Jiu-Jitsu?
MARCOS GOMES: Eu hoje tenho turma de crianças e de No Gi. Assim que comecei a me preparar para dar aulas, eu me forcei a estudar mais. Estudar mais inglês, mais Jiu-Jitsu, para conversar e explicar melhor. É óbvio que dentro da AOJ eu tenho várias referências, ótimos professores e parceiros de treinos. O ambiente também me estimula a ser cada vez melhor. Estar ali no dia a dia, ver o Tainan (Dalpra), o Guilherme dando aula, poder trocar uma ideia no treino, com o Cole (Abate), Diego ‘Pato’, Guilherme Fernandes, são pessoas que me ajudam bastante no dia a dia.
THE MAT NATION – Na final, você enfrentou o Kleber Barbosa, um ex-companheiro de equipe, e fez questão de exaltá-lo após a luta, destacando que ambos vieram de periferias do Brasil. O que essa final representa para você, não só esportivamente, mas como símbolo de superação e pertencimento?
MARCOS GOMES: Eu e o Kleber treinamos por alguns anos juntos. Ele é um cara que eu respeito muito como atleta e como pessoa. Eu e ele temos perfis parecidos, nós viemos de favela, poderíamos ir pelo caminho errado, mas conseguimos perseguir o nosso sonho. Ter chegado em uma final de Mundial com ele foi uma grande honra, independentemente do resultado. Ele teve uma campanha incrível na competição mesmo no primeiro ano de faixa-preta. Ver essa galera da nova geração chegando, mostrar que estamos bem, que podemos dar show em uma final de Mundial, é muito gratificante.

THE MAT NATION – Depois desse título mundial na faixa-preta, quais são os próximos objetivos do Marcos Gomes? O que você sente que ainda pode evoluir no seu jogo e que mensagem deixaria para quem vive uma realidade parecida com a que você viveu no início da carreira?
MARCOS GOMES: Eu acabei de ganhar meu primeiro título mundial na faixa-preta, é muito difícil você subir das coloridas e já conseguir ganhar na preta, muda bastante o nível. Eu sou jovem ainda, mas as metas que tenho hoje vão além do objetivo de ser só um bom atleta. É óbvio que sempre tento corrigir meus erros das competições passadas, estou sempre perguntando para as pessoas próximas de mim, revendo minhas lutas. Mas eu tenho que melhorar também como pessoa, como professor, eu me cobro isso. No ano passado eu fiquei em segundo lugar e mantive essa mesma mentalidade, de continuar trabalhando para melhorar e evoluir nessas áreas. Acho que foi isso que fez com que eu voltasse, um ano depois, muito mais forte. Agora, quero ser mais ativo no No Gi e ter a oportunidade de fazer superlutas.
Escolha bem as suas amizades e escute as pessoas que realmente querem o seu bem. Não dê ouvidos para opiniões negativas, às vezes elas vão vir da sua própria família, mas isso não importa, só continue trabalhando duro e convivendo com as pessoas certas. Isso faz toda a diferença, são as companhias que podem te jogar para cima ou para baixo. Eu sou a prova viva disso.


