IRMÃOS GÊMEOS E CAMPEÕES JUNTOS: LARISSA E ENDERSON DIAS CELEBRAM E COMPARTILHAM A CONQUISTA DO TÍTULO NO PAN DE JIU-JITSU

Os dois, pela primeira vez na carreira, conseguem o topo do pódio em um mesmo evento de Grand Slam, na divisão faixa-preta adulto
Enderson Dias comemora primeiro título de Grand Slam da IBJJF na faixa-preta. Foto: @hstudiobjj

A parceria de Larissa e Enderson Dias, irmãos gêmeos que ganharam juntos o Pan-Americano da temporada, vai muito além da comemoração que foi vista na Silver Spurs Arena, em Kissimmee, nos Estados Unidos. Larissa já tem um currículo robusto no alto rendimento, é bicampeã mundial de Jiu-Jitsu pela IBJJF e agora tricampeã do Pan. Na final do peso pesado feminino, ela venceu Maria Malyjasiak com domínio estratégico e carimbou a vaga no lugar mais alto do pódio. Entrevistada pela The Mat Nation depois do título recente, ela disse que Enderson tem uma participação enorme nessa coleção de conquistas. “Ele acreditou mais do que eu mesma”, disse. Aliás, foi o irmão que sempre incentivou a dedicação integral ao Jiu-Jitsu, certo de que esse era o caminho a ser seguido.

Vencer um campeonato de Grand Slam da IBJJF é sempre um feito relevante, mas para Enderson Dias, o significado foi ainda mais grandioso. Foi aquela medalha de ouro, merecida depois de uma guerra na final do meio-pesado contra Alex Munis, que fez ele entender, com uma clareza evidente, que as provações do passado tinham prazo de validade. Uma dificuldade que expirou no dia 30 de março, último dia de Pan, um domingo dedicado às finais do faixa-preta adulto. Em entrevista exclusiva à The Mat Nation, Enderson disse que viver do Jiu-Jitsu sempre foi uma missão que ele nunca conseguiu ignorar: “O plano B sempre foi fazer o plano A, fazer o Jiu-Jitsu dar certo”, reforçou. 

Leia na íntegra a entrevista com os irmãos Dias:

THE MAT NATION – Vocês cresceram no Engenho Novo, no Rio de Janeiro. Como foi o primeiro contato de cada um com o Jiu-Jitsu e em que momento isso deixou de ser só uma atividade para virar um projeto de vida?

LARISSA DIAS – Dos 16 para os 17 anos eu estava procurando uma atividade física para me ajudar a emagrecer. Eu queria começar a fazer natação e frequentava a academia de Jiu-Jitsu só para assistir o meu irmão nos treinos. A comunidade do esporte é muito acolhedora e eles sempre interagiam comigo e me convidavam a treinar. Eu respondia que não gostava, que preferia a natação. Até que, depois de tanta insistência, me arrumaram um kimono e eu decidi fazer uma aula experimental. Foi paixão à primeira vista. Achei meio estranho no começo, mas muito interessante. Eu mudei da GFTeam Engenho Novo com o professor Maurício Abreu, onde treinei por volta de 3 meses, para GFTeam Headquarters porque era mais perto da minha casa. O HQ era uma academia de atletas profissionais. Então, assim que entrei, a galera comentava muito sobre competição. A minha entrada foi em fevereiro de 2015 e em março aconteceu o campeonato interno da GFTeam; eu decidi lutar e ganhei. Comemorei tanto, acho que até mais do que o meu primeiro título mundial na faixa preta (risos). Em 2016 lutei o Campeonato Brasileiro e venci, na faixa branca adulto. Depois disso eu decidi que queria ser profissional. Todos da academia me diziam que o Brasileiro era o campeonato mais difícil de ganhar e eu consegui, isso acendeu a chama de acreditar nesse sonho.

Larissa Dias brilhou com mais uma performance efetiva no Pan-Americano. Atleta conquistou o tricampeonato no torneio, nos Estados Unidos. Foto: @hstudiobjj
Larissa Dias brilhou com mais uma performance efetiva no Pan-Americano. Atleta conquistou o tricampeonato no torneio, nos Estados Unidos. Foto: @hstudiobjj

ENDERSON DIAS – Comecei a treinar com 16 anos, através de um amigo chamado Caio. Nos conhecemos no ensino médio, e como ele morava no Engenho Novo, estávamos sempre fazendo muitas coisas juntos. Ele era faixa azul de Jiu-Jitsu e me convidou para treinar. Foi assim que tive minha primeira aula, na academia Campanella, muito tradicional no bairro, com o professor Maurício Abreu. Desde o primeiro treino, me apaixonei pela arte.

THE MAT NATION – Em algum momento, um influenciou diretamente o outro a seguir no esporte? Como essa relação de irmãos impactou, positiva ou negativamente, a caminhada de vocês dentro do Jiu-Jitsu?

LARISSA DIAS – Então, eu sempre fui muito inteligente na escola, tinha vários planos de seguir a minha vida acadêmica antes de me apaixonar pelo Jiu-Jitsu. Quando eu decidi seguir de maneira profissional, eu sempre tinha o plano B, que era a faculdade. Antes do Jiu-Jitsu eu estava inclinada a cursar Direito e Engenharia Ambiental. Ser profissional de Jiu-Jitsu e conciliar duas faculdades não daria certo. Por isso, optei por Nutrição, um curso que me ajudaria na carreira de atleta. O meu irmão nunca quis fazer faculdade porque ele acreditava 100% no sonho de ser atleta e tinha certeza que seria um campeão e que alcançaria  sucesso através do Jiu-Jitsu, mas ele sempre me motivou e me ajudou muito nos treinos, acho que ele acreditou que eu seria campeã mais do que eu mesma. Eu sempre dou o melhor de mim em tudo que faço. Eu treinava o dia inteiro, fazia perguntas para os mais graduados, treinava com as pessoas que eram melhores que eu. Apanhava muito, mas sempre usava isso como uma experiência positiva para evoluir.

ENDERSON DIAS – Sim, as artes marciais foram introduzidas em nossas vidas através do nosso pai, Anderson, que era lutador de Muay Thai; então, a luta sempre esteve presente no nosso dia a dia desde a infância. Depois de terminarmos o ensino médio, decidimos entrar na faculdade e optamos por Nutrição, pois estava relacionada com o Jiu-Jitsu, alimentação saudável e bem-estar; mas, para mim, nunca existiu plano B. O plano B sempre foi fazer o plano A, fazer o Jiu-Jitsu dar certo. Então, eu fiz a faculdade mais para dar orgulho aos meus pais; mas o Jiu-Jitsu sempre foi a minha verdadeira paixão. Era assim que eu me via no futuro: vivendo do esporte que amo. Em 2020, durante a pandemia, estávamos morando em São Paulo e cursando Nutrição; porém, por conta da pandemia, nossa vida praticamente parou, tanto nos treinos quanto profissionalmente. Foi nesse momento que tomei a decisão de trancar a faculdade e me tornar atleta em tempo integral, focado 100% no Jiu-Jitsu. Para a minha irmã, foi uma fase muito difícil porque ela não queria parar a faculdade. Foi quando eu disse para ela: “Para que possamos chegar ao nível que queremos, precisamos estar 100% focados na nossa carreira agora. Eu sei que você vai se tornar campeã mundial; vamos viver do Jiu-Jitsu e dar uma vida melhor para os nossos pais.” Foi um momento difícil para ela; para mim, foi algo natural. Eu sempre soube, desde criança, que viveria da luta, isso está no meu sangue. E foi nesse momento que demos o maior passo das nossas carreiras.

THE MAT NATION – Hoje vocês vivem do Jiu-Jitsu nos Estados Unidos, algo que muitos atletas sonham. Qual foi o ponto de virada na trajetória de vocês que fez esse cenário deixar de ser distante e se tornar realidade?

LARISSA DIAS – Eu e meu irmão sempre fomos bons atletas, sempre estávamos ganhando ou marcando presença no pódio entre os melhores. Eu acho que desde a faixa-azul nós já éramos conhecidos na comunidade do Jiu-Jitsu porque sempre treinamos e nos dedicamos muito para performar bem nos campeonatos. Meu irmão, na minha opinião, se dedica até mais do que eu em certas áreas, mas sempre soubemos que para viver do esporte de uma maneira confortável é importante fazer essa transição para os Estados Unidos. É um país que valoriza os atletas e permite o custeio da vida de atleta, além de oferecer mais oportunidades de patrocínio. É nesse lugar que podemos trabalhar com o que amamos e ter uma vida confortável. Nos mudamos para os Estados Unidos em 2021, eu tinha acabado de pegar a faixa-preta e meu irmão foi graduado em janeiro de 2022. Nós viemos para o exterior por meio de uma oportunidade que tivemos, de representar uma academia treinando e lutando nos campeonatos. Foi assim que decidimos vir.

ENDERSON DIAS – Em 2021 decidimos nos mudar para os Estados Unidos; como sabemos, viver no Brasil como atleta não é fácil. Todo atleta enfrenta muitos obstáculos: falta de valorização, poucos recursos financeiros e falta de suporte para viagens internacionais, especialmente para as competições mais importantes do circuito. Eu e minha irmã viemos de uma realidade muito humilde; nunca tivemos condições financeiras para custear viagens ou investir na nossa carreira para competir em grandes campeonatos. Trabalhávamos e fazíamos de tudo, mas ainda assim não era suficiente. Sabíamos que nos mudar para um país como os Estados Unidos nos levaria a outro nível; teríamos mais oportunidades, mais chances de conseguir patrocínios e, principalmente, mais suporte financeiro para investir nas competições. Sempre tivemos ótimos resultados nas faixas coloridas; conquistamos os campeonatos mais importantes do Jiu-Jitsu. Porém, também sabíamos que, se tentássemos viver do esporte no Brasil, infelizmente poderíamos acabar desistindo do nosso sonho para trabalhar em outra área. Mesmo com pouco, sempre acreditamos, fizemos o nosso melhor. Ganhamos campeonatos da IBJJF, CBJJ e AJP, que nos tornaram conhecidos no Brasil e abriram portas para que hoje pudéssemos viver aqui.

O campeão é do Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro. Enderson Dias foi o melhor competidor entre os atletas do meio-pesado, faixa-preta adulto, no Pan-Americano da IBJJF. Foto: The Mat Nation
O campeão é do Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro. Enderson Dias foi o melhor competidor entre os atletas do meio-pesado, faixa-preta adulto, no Pan-Americano da IBJJF. Foto: The Mat Nation

THE MAT NATION – O Pan da IBJJF já tem um peso enorme, mas dessa vez vocês, que são irmão gêmeos, foram campeões na mesma edição. O que esse momento representa individualmente e o que ele ganha de diferente por ter sido vivido lado a lado?

LARISSA DIAS – Para mim, ver o meu irmão ganhar é um privilégio muito grande. Eu sei o quanto ele trabalha duro para conquistar os títulos que tanto almeja. Nesse Pan-Americano eu me tornei três vezes campeã, mas sempre me entristecia ver o meu irmão perdendo; eu sei o quanto ele merece. Essa edição vai ficar marcada na nossa história. Foi a primeira vez que fizemos a final de um campeonato Grand Slam da IBJJF e, ainda melhor, porque saímos campeões. Então, para mim, ver o meu irmão alcançar seus objetivos é uma sensação indescritível. Eu não tenho palavras; eu só tenho muita gratidão a Deus por me permitir viver esse momento.

ENDERSON DIAS – Foi muito especial, eu venho tentando ganhar esse campeonato há 5 anos. Minha irmã já conquistou o Pan-Americano três vezes, ela sempre me incentivou e dizia que a minha hora ia chegar. Eu só precisava continuar trabalhando duro e entregar tudo nas mãos de Deus. Tudo aconteceu de uma forma muito maior e melhor do que eu poderia imaginar, um sentimento incrível. Sou grato a Deus por viver isso com ela!

Larissa Dias em momento de concentração antes de entrar no tatame para a disputa final do peso pesado feminino, no último dia de disputas do Pan, em Kissimmee. Foto: The Mat Nation
Larissa Dias em momento de concentração antes de entrar no tatame para a disputa final do peso pesado feminino, no último dia de disputas do Pan, em Kissimmee. Foto: The Mat Nation

THE MAT NATION – Hoje vocês dividem o mesmo time na Elementum Jiu-Jitsu, na Flórida. Como essa fase atual reflete tudo o que vocês viveram até aqui e onde cada um ainda quer chegar a partir desse ponto?

LARISSA DIAS – Falar da Elementum, para mim, é falar de casa, de família, de um lugar acolhedor e aconchegante. Nossa academia é pequena e a gente conhece todo mundo, torcemos um pelo outro e somos bem unidos. Não somos uma equipe de competição, mas tudo o que fazemos dentro da Elementum fazemos com excelência porque o nosso head coach, Tarsis da Gama, e sua esposa, Martina, nos ensinam isso todos os dias. Meu objetivo depois do Pan é continuar os treinos para o Mundial e se Deus quiser me tornar três vezes campeã mundial. Também está entre as minhas prioridades ver o meu irmão alcançar o seu primeiro título mundial.

ENDERSON DIAS – É um prazer imenso poder fazer parte da Elementum; é a nossa casa, onde temos o nosso mestre, Tarsis da Gama, que é meu mentor, pai e amigo. Estamos muito felizes por estar vivendo tudo isso com o nosso time. O objetivo é mostrar como o poder do trabalho em equipe e a união podem gerar resultados incríveis. Nossa academia não é um time grande, mas temos um único propósito, o que faz esse lugar ser mágico. Mal posso esperar para ver o que Deus tem reservado para nós, estou muito empenhado e motivado para buscar meu primeiro título mundial este ano.

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