
Virar referência dentro de um meio de atuação não é tarefa fácil. Quem consegue tal feito vislumbra uma oportunidade, faz da missão uma obrigação e se dedica integralmente ao desenvolvimento de uma habilidade. Foi exatamente isso que Marco Aurellio de Queiroz, junto com Lucas Alexandre, seu irmão, fez para fazer da Pirâmide Grappling uma academia não apenas diferente, mas diferenciada.
Hoje, o Jiu-Jitsu praticado sem kimono, mais conhecido como No Gi, é uma realidade mundial, mas houve um tempo em que a modalidade sofria certa negligência no Brasil. O treino com kimono ocupava todo o quadro de horários das academias e, quando se tirava o kimono para treinar, a prática geralmente corria solta, sem rotina, sem método.
Por falar em metodologia, esse é um assunto levado muito a sério dentro da Pirâmide, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Marco Aurellio tem apego ao ensino com planejamento e todos os atletas que ministram aulas sob a bandeira da equipe devem se comportar da mesma forma. O fundador, além de professor, é atleta sempre que surge uma oportunidade. Sua experiência mais recente como competidor foi do outro lado do mundo, no Japão. No The Okinawa Invitational, Marco Aurellio participou de um GP de grappling, até 80kg. No total, 12 atletas estavam no páreo e quem chegou mais longe foi justamente ele; um campeão com louvor, vencedor de todas as lutas, cinco embates, por finalização.

Em entrevista à The Mat Nation depois da experiência 100% positiva na Ásia, Marco Aurellio falou sobre a importância de ter mostrado, na prática, a eficácia de técnicas executadas diariamente nos tatames da Pirâmide Grappling, no Rio de Janeiro.
THE MAT NATION – Vencer um GP com 12 atletas em Okinawa tem um simbolismo especial. Como foi viver essa experiência e o que essa conquista no Japão representa dentro da sua trajetória à frente da Pirâmide Grappling?
MARCO AURELLIO DE QUEIROZ – Vencer um GP com 12 atletas em Okinawa teve um simbolismo muito forte para mim. O Japão sempre foi uma referência mundial quando falamos de artes marciais e disciplina, então conquistar um título desse nível aqui acaba tendo um peso diferente dentro da minha trajetória.
Mais do que uma vitória individual, eu senti que estava representando tudo aquilo que construímos diariamente na Pirâmide Grappling. Foram anos desenvolvendo uma cultura de treino, um método e uma mentalidade muito específicos. Conseguir atravessar o mundo e validar isso em alto nível, em um lugar tão tradicional dentro das artes marciais, foi algo muito especial.
Acho que essa conquista mostra que a Pirâmide hoje não é apenas uma equipe local. Estamos construindo uma identidade própria, com alcance internacional, capaz de competir e ensinar em qualquer lugar do mundo.
THE MAT NATION – A Pirâmide construiu uma identidade técnica muito sólida no No Gi. Estar do outro lado do mundo, levando esse conhecimento para o Japão e conseguindo colocá-lo em prática com efetividade total na competição te trouxe alguma confirmação sobre a universalidade do método que vocês desenvolvem?
MARCO AURELLIO DE QUEIROZ – Sem dúvida. Essa experiência no Japão reforçou ainda mais a minha confiança no método que desenvolvemos dentro da Pirâmide Grappling.
O grappling moderno é muito dinâmico e globalizado, mas mesmo assim cada equipe acaba criando suas próprias características. A nossa sempre foi baseada em pressão, estratégia, leitura de combate e muita repetição consciente dos detalhes. Ver isso funcionando contra atletas de diferentes estilos e nacionalidades mostra que os princípios que seguimos realmente são universais.
Acredito muito que quando um método é sólido de verdade, ele funciona independentemente do país, da regra ou do contexto. E talvez o mais gratificante tenha sido perceber que o que ensinamos diariamente aos nossos alunos no Rio de Janeiro conseguiu ser aplicado com efetividade total do outro lado do mundo, em um ambiente altamente competitivo. Isso mostra que estamos no caminho certo.

THE MAT NATION – O Japão carrega uma herança marcial que influencia o mundo inteiro. Na sua percepção, como o país enxerga o grappling hoje, e o que essa experiência te mostrou sobre o espaço que a modalidade ainda pode conquistar dentro de uma cultura tão conectada à tradição e à excelência técnica?
MARCO AURELLIO DE QUEIROZ – O Japão tem uma relação muito profunda com as artes marciais. Existe um respeito enorme pela disciplina, pela técnica e pelo processo de evolução constante. E isso faz com que o grappling seja visto de uma maneira muito séria aqui.
Ao mesmo tempo, percebi que o grappling ainda tem muito espaço para crescer dentro dessa cultura. O público japonês entende e valoriza detalhes técnicos, estratégia e intensidade competitiva, então existe uma conexão natural com a modalidade. Acho que o No Gi, principalmente, ainda está vivendo um processo de expansão muito grande no país.
Essa experiência me mostrou que o grappling moderno consegue dialogar muito bem com a tradição marcial japonesa. Mesmo sendo uma modalidade relativamente nova em comparação com artes mais tradicionais, ela carrega muitos valores que o Japão respeita profundamente: disciplina, eficiência, adaptação e busca constante pela excelência técnica. E viver isso de perto foi algo que me marcou bastante.


